Régis Thiago
Jornalista e Ballaieiro
A morte é nossa inimiga, mas não apaga sua trajetória: Vito Giannotti
Não acredito até agora neste fato, mas faz parte da vida, a morte sempre será nossa maior inimiga. Nem sei como escrever sobre você meu camarada, mas vamos lá.
“As pessoas boas morrem primeiro que as outras, mas jamais são esquecidas por suas obras e feitos no decorrer de suas vidas”. Esse é um pensamento que escrevi há muito tempo e que estava nas minhas anotações. Infelizmente perdi, ou melhor, perdemos um grande jornalista chamado Vito Giannotti. Para quem não o conhece, o italiano chegou em 1964 ao Brasil, onde trabalhou como operário e fundou diversos jornais enquanto era operário e membro da oposição sindical metalúrgica de São Paulo. Mudou-se para o Rio de Janeiro, fundou o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), que realiza cursos de formação de comunicadores para as entidades sindicais e movimentos populares da forma mais critica e alternativa.
Eu fui pesquisador de um dos seus jornais chamado Luta Sindical de 1975, onde tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente. Tomar a água que passarinho não bebe e ter o privilégio de altas conversas. Vito me ajudou muito sobre vários aspectos da comunicação alternativa, sempre muito paciente, humilde e com aquele sorrisão marcante. A última entrevista que realizei com ele está abaixo.
Vito Giannotti afirma: "devemos trabalhar muito mais a comunicação, porque a comunicação hoje tem mais peso que cinquenta anos atrás. Hoje a comunicação é centralizada na sociedade, cem anos atrás o cara era metalúrgico que morava longe e não tinha informação de nada, só um jornal que ele nunca lia; ou a informação que um vizinho contava ou que ele ouvia no bonde que ele pegava. Não tinha tanto acesso a informação. Além de grande maioria ser analfabeto no passado. Então hoje o bombardeio dos meios de comunicação de massa mudou muito no século 20. Antigamente a informação era microscópica. Olha o cinema, tínhamos 350 salas de cinema. Ele foi uma baita ferramenta ideológica. Ninguém começou a fumar porque Deus mandou fumar, nem porque os índios fumavam, foi porque Hollywood mandou fumar. Toda ideologia americana foi passada pelo cinema. Depois pela TV e assim por diante. Muitos brigam comigo ,mas a propaganda, a tv, o rádio e a internet tem quase poder absoluto sobre a cabeça das pessoas".
Sempre muito polêmico e nunca com medo de dizer o que pensa, perguntei para ele se poderia voltar a uma ditadura, igual ocorreu no passado e ele me explica: "No passado não foi apenas um golpe militar, foi um golpe militar empresarial. O capitalismo se diverte com qualquer brincadeira mesmo que seja democracia ou ditadura. Os empresários estão lucrando muito na democracia, nunca foi tão bom para eles, agora privatizam tudo, até a mãe se puder, então; se os empresários acharem outro sistema para terem mais lucro nas costas da classe trabalhadora eles vão apoiar. Então não podemos nos apegar a detalhes".
Por isso devemos mesmo ficar atentos com o progresso e evolução de tudo. Jamais devemos esquecer o passado e de tudo que aconteceu, árduas lutas e muitas mortes.
Vito sempre foi conhecido pelos seus palavrões, pela sua luta a favor dos operários e oprimidos. Quando eu perguntava, Vito e agora? Ele respondia: “A porra da luta continua”.
Que a luta continue meu caro camarada. "Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então, somos companheiros". - Che Guevara
Vito faleceu dia 24 de julho de 2015.
 
 
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