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Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
ABENÇOADOS OS QUE ESQUECEM
POR REJANE BORGES

Eu gosto de Charlie Kaufman por causa de sua sensibilidade curiosa, para não dizer esquisita. Seus roteiros são todos mais ou menos pelo avesso. Genais. Kaufman é um homem que lê um poema e inspirado escreve um roteiro. Assim nasceu “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004). 
“Feliz é a inocente vestal / Esquecendo-se do mundo e sendo por ele esquecida / Brilho eterno de uma mente sem lembranças / Toda prece é ouvida, toda graça se alcança”. Esse poema de Alexander Pope é citado no insólito “Brilho Eterno” do diretor Michael Gondry. O poema remete à idéia de que a única maneira de ser feliz é esquecer-se e tornar-se esquecido, pois somente na ausência de qualquer lembrança existe toda a graça. Pope fala de mentes imaculadas, corações resguardados, os quais não são assombrados por lembranças do que um dia foi e nunca mais será.
“Brilho Eterno” ostenta um elenco de grandes nomes como Jim Carrey, Kate Winslet, Mark Ruffalo, Kirsten Dunst, Elijah Wood e o veterano Tom Wilkinson - talentoso e premiado ator que já engrandeceu, além do cinema, produções da TV americana.
O roteiro foge completamente ao padrão de Hollywood – como era de se esperar, tratando-se de Kaufman, o mesmo gênio que escreveu o excêntrico “Quero ser John Malkovich” (Being John Malkovich, EUA, 1999) e “Adaptação” (Adaptação, EUA, 2002). Ele consegue atribuir às personagens sentimentos tão densos que quase necessitam de ser humanizados. Os labirintos narrativos do roteiro prendem o expectador a uma trama supra-sensível, estendendo-se à metafísica – característica de Kaufman. Fragmentado em diversos temas, como amor, passado, memória, solidão, etc., o filme permite variadas formas de interpretação.
Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formam um casal que poderia ser considerado o mais “anti-herói” dos casais do cinema contemporâneo. Eles simplesmente não se adaptam - no entanto, se amam. Joel é um homem sensato, contido e tímido. Um pouco neurótico e melancólico. É mais pessimista e impõe limites aos seus próprios sonhos, preferindo os pés no chão. Clementine leva a vida menos a sério e é mais espontânea do que Joel, beirando uma irresponsabilidade inerente de quem é mais atrevido. Ela abusa da liberdade de se pronunciar e, apesar da aparência forte, é uma pessoa bem sensível.
O relacionamento é rompido e, frustrada, Clementine submete-se a um tratamento experimental que promete apagar da memória os momentos que viveu ao lado de Joel. No entanto, Joel descobre o que ela fez e, sentindo-se agredido, resolve fazer o mesmo. Porém, desiste de esquecê-la, por tomar consciência de que apagando-a de sua memória, apagará também uma parte de si mesmo. É então que começa uma saga dentro da mente de Joel para salvar Clementine do esquecimento e escondê-la em momentos de sua vida em que ela não esteve. Como sua infância, por exemplo.
O surrealismo da trama é potencializado pela fantástica fotografia e cores da película. O filme joga com a plasticidade da nossa memória, um lugar cujo suporte físico é enorme. A trama possui um viés cômico e ao mesmo tempo romântico, com um ritmo atemporal.
Apesar da máxima “abençoados os que esquecem” – baseada em uma frase de Nietzsche – não há como abafar os ecos de relações ou circunstâncias que um dia vivemos. O filme oprime o comportamento prepotente do ser humano, que tenta recriar a memória para evitar a dor.
Assim como o amor define a nossa humanidade, a dor a define também.
Oscar pela categoria “Melhor Roteiro Original”, além de ter sido nomeado na categoria de “Melhor Atriz” pela espetacular interpretação de Kate Winslet.
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