Valéria Cecília Roque
Publicitária, Redatora e Ballaieira
CORAÇÃO PARTIDO
Pra mim, a imagem mais triste de ontem foi ver a decepção do meu afilhadinho Pedro. Sua primeira Copa, ele de camisa da seleção e cheio de sabedoria, do alto dos seus 7 aninhos,  me dizia enquanto eu brigava com os jogadores: “Dadá, também não é tão fácil como você tá achando não!”
No mais, um choro aqui, uma cara de assombro ali, mais uma lágrima acolá... As milhares de piadas são a prova de que a Copa de 2014 não foi mesmo a Copa das Copas como quiseram nos fazer acreditar.
A gente até tentou, afinal, somos bons nessa coisa de viver de ilusão. Mas não há quem afirme, em sã consciência, que acreditamos de verdade nessa seleção e nessa Copa. E por favor, não tem nada a ver com a coitada da Dilma, com falta de saúde e educação, problemas crônicos do Brasil desde que me conheço por gente.
Tem a ver com AMOR.Brasileiro AMA o futebol...não um futebol qualquer...mas um futebol arte, que enche os olhos, mesmo que ao final não resulte em canecos. Sabe, o futebol é sagrado pra nós. Talvez o único verdadeiro motivo de orgulho dessa nação tão descrente de sua força: somos o país do futebol!
Ontem, só conseguia lembrar da Copa de 82. O Brasil chorou de verdade. Estávamos construindo a nossa casa e me lembro do nosso pedreiro, Seu Olímpio, em cima do telhado chorando igual a criança e dizendo a toda hora: “Eu vou pular daqui!”
Choramos de cabeça erguida! Lindo de se ver. Uma foto rodou e comoveu o mundo, estampou a capa do jornal...um menino, até então anônimo, chorava , talvez a maior tristeza de sua vida. 
Novamente, como o meu Pedro, outros meninos foram flagrados chorando, mas são sortudos que, ao contrário de nós, vão crescer sem essa  ilusão de que ainda somos os melhores. Não somos e isso sim é triste. Levar de 7 é fichinha. E somos coniventes, o que é pior ainda. Como vibrar com uma seleção que não tinha nenhum ídolo dos clubes nacionais? No primeiro jogo, Eu não ligava o nome à pessoa de vários deles, nunca tinha visto na vida. Não tinha um representante do Mengão, não tinha ninguém com a raça do Corinthians, não tinha ninguém com a garra do Atlético, ninguém pra honrar a tradição do Santos e tão pouco alguém pra jogar com  a sofisticação do São Paulo. Não tinha Brasil ali!
Nesta semana que passou, assim que ficou definido que enfrentaríamos a Alemanha, vi uma entrevista com um alemão dizendo que estava muito feliz de estar participando da Copa no Brasil, que era o máximo jogar contra a Seleção Brasileira e que ele só lamentava que o futebol brasileiro já não mais existia há pelo menos 10 anos.
Que soco no estômago! De fato, o futebol brasileiro, genuinamente brasileiro, que nos move, nos comove e nos faz encher o peito de orgulho pra cantar “Sou brasileiro, com muito orgulho, com  muito amor” não existe mais e nem vai existir enquanto deixarem nossos  meninos serem contratados pelo Barcelona aos 10 anos de idade, enquanto a retranca for nossa opção, enquanto os jogadores beijarem e jurarem amor à camisa...à várias camisas inclusive dos clubes arqui rivais. Imagina o Zico jogando no Vasco ou no Fluminense! Sabe quando? NUNCA!
Hoje não tem gosto amargo pela derrota, mas tem milhões de corações partidos pelo pior tipo de decepção: a decepção amorosa. AMAMOS O FUTEBOL que ama a Alemanha, a Holanda e pra nossa morte, a Argentina! Sim, os hermanos tratam o futebol com o respeito que perdemos por ele há tempos. (OBS: Respeito a Argentina, mas torço contra sempre!)
Sem treino, sem coração, sem dedicação não importa que Deus é brasileiro. Ele não faz milagre sozinho...milagre é uma parceria e falhamos com a nossa parte. Aliás, cada vitória até ontem foi na base do milagre, mas não fomos merecedores do milagre final.
Que o 7 seja o nosso número de sorte daqui pra frente. Que a partir de agora, treinemos 7 dias por semana, 7 horas por dia! Que 7 em cada 10 jogadores da seleção sejam ídolos revelados nas equipes de base dos clubes brasileiros e que tenham vestido a camisa do time do coração a vida inteira. Que o sonho dos nossos meninos seja jogar no Corinthians e não no Barcelona, no Flamengo e não no Chelsea ou Paris Saint German. Aliás, que a gente nem saiba o nome desses clubes até o dia de jogarmos a Final do Campeonato Mundial Interclubes depois de termos nos sagrado campeões da Libertadores arrasando com os vizinhos.
Por sorte o amor é resistente e sobrevive e ressurge ainda mais forte. Tomara que em 4 anos possa ver o sorriso estampado no rosto do Pedro, orgulhoso da sua seleção dando um show de bola.
E eu que comecei falando do desapontamento da novíssima geração da família, me despeço contando como foi nosso fim de noite lembrando da matriarca, minha Vó Benedita, que era fanática por esporte. Pra ela a oração diária no horário de sempre era sagrada e sua paixão pelo esporte, e mais ainda pela Copa, fazia com que ela até adiantasse a reza e incluísse a seleção nela. Pois bem, ontem, minha prima Dani me chama quando estava indo embora e diz: “Dadá, que bom que a Vó não tá aqui pra ver isso!”
Que bom! Seu velho e apaixonado coração não merecia tamanha decepção.
Dias e futebol melhores pra gente!
 
Desenvolvido por DEC WebSites